Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

NEM TUDO QUE É COMESTÍVEL É COMÍVEL

Ele abriu a geladeira e só pôde ver duas garrafas com água e uma panela com alguma sobra de comida. Sentiu vontade de agarrar uma garrafa, mas o ar gelado que saia do interior da geladeira o fez tossir, fazendo-o desistir da investida. É asmático e nada de gelado conforme o médico o advertira. Usa sandálias franciscana com meias, sempre as mesmas, com os bicos molhados de urina. Na sala, avistou a companheira. É velho, mas mais velho ainda se sente ao vê-la ali, naquela cadeira, fazendo hora-extra na vida.
Ficou a observá-la. Esforçou-se, mas ela não o apeteceu. Enfiou uma das mãos no bolso da calça de há vários dias usada e tirou algum trocado. Contou-o.
Saiu silenciosamente e tomou o rumo do supermercado. Caminhava lentamente, parava apenas para escarrar entre uma esquina e outra. Chegou meio que perdido, feito cachorro sem dono e adentrou o local pouco movimentado naquele horário de sol a pino. Passava entre os corredores e punha-se a observar os produtos das prateleiras. Não os tocava. Observava-os apenas. No açougue, pôs-se diante das carnes embaladas, vermelhas e vivas àqueles olhos velhos azuis. O frio do ambiente o fez tossir e logo saiu do local, sem se dar conta estava na feirinha. Desnorteou-se perante a lembrança de há quanto não fazia a feira. Saudade latente.
Avistou a maçã. De pele brilhosa, cor vermelha de puro viço, sabor de maçã! Foi em direção a fruta, ela o convidara àquele apetite. Quis tocá-la, mas hesitou. Compôs-se e, delicadamente, aproximou-se para cheirá-la. Cheirava-a e extraia dela o gosto da maçã. Saboreava aquela visão. Satisfez-se. Em outras bancas buscava algo mais ao seu sabor. Tocou, enfim, a mexerica; a sentiu grossa, flácida e passada. Devolveu-a junto com as demais e passeou entre os legumes: cenoura, pepino, mandioca... Diante deles, ficou estático, e os consumidores o perceberam ofegante naquela situação. Ao notar-se à vista de todos, pegou vários pepinos como que querendo comprá-los, mas os devolveu tão logo saboreou – lhes o cheiro.
Passou a frequentar o local todos os dias de sol a pino e a exercer o seu voyeurismo, nada a ver com LAVOYERISMO, que é comer a carne e roer o osso, graças a Deus!
Todos os dias, após o seu ritual na feirinha, o velho passa na confeitaria, pega uma bandeja de maria-mole e sai feliz. É o que pode pagar, é o que consegue comer.
Texto publicado no Jornal Folha da Região em 09/07/2009.

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

COM VONTADE DAQUELA DATA.


Ela espera ansiosa por aquele “parabéns pra você”.
Começou a achar que nada mais aconteceria, nem antes e nem depois daquela “data querida”.
Quase não dormia; adormecia apenas, por medo de não acordar e viver “muitas felicidades”. A ansiedade atormentava-lhe também o estômago. Via e sentia cada guloseima sendo feita para a ocasião dos “muitos anos de vida”.
Refeições já não lhe desciam. Reservava o lugar para o cheiro do que preparavam. Com os olhos já secos pela insônia e a inanição atormentando-lhe as vísceras, começou a delirar e, num surto, quis atacar os belos doces que enfeitavam uma mesa da sala onde receberiam muitos convidados para aquele esperado “ é pic! é pic!”.
Foi abordada quando levava os dedos àquilo que lhe cheirava tão bem aos olhos. Atordoada com um ‘croc’ que levou na cabeça, não entendeu as reprimendas da mãe que a alertava: “não é hora! não é hora”.
Ela esperava há muito por aquele “rá-tim-bum!” Assistia ao movimento da casa, os empregados em roda-viva e a aflição da mãe que não desgrudava do telefone, gritando com alguém do outro lado porque a roupa da criança ainda não havia sido entregue. Na cozinha, montavam o bolo com muitos recheios que lhe escorreram pelo canto da boca. Levou os dedinhos mais uma vez e outro ‘croc’ ela saboreou. Dessa vez não escapou de um castigo de há dias no quarto.
O corre-corre continuou porque a festa para aquela data estava planejada e nada poderia sair errado.
A casa estava decorada com os mais variados enfeites infantis. As mesas, belamente enfeitadas, confluíam para outro salão igualmente abrilhantado para o aniversário daquela criança. A roupa, minuciosamente desenhada e bordada, enfim chegou. Uma serviçal a levou para o quarto onde a criança jazia o castigo por ter querido saborear o bolo do seu aniversário antes dos parabéns. Perguntaram-se qual a razão daquilo.
Os convidados foram chegando e amontoando os presentes que não sabiam a quem entregar enquanto a mãe lamentava-se não saber nenhuma anomalia da criança.
Um bolo indesejado destoava em meio aos enfeites, enquanto velas acesas queimavam a felicidade atravessada de vontade de saborear as coisas daquela festa. Convidados assistiam àquela criança, degustando os quitutes, lamentando aquela data.
PS. Pais, esta minha história, hoje, é ficção, mas se eu não acordo a tempo, viraria realidade.
Texto publicado pelo Jornal Folha da Região em 10/06/2009.

Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

NÃO QUERO QUE ME BATAM.




Jogaram-me em uma arena para pagar o que eu devo. No que estendi as mãos, para um breve cumprimento, um golpe me foi dado levando-me à lona. A areia era macia, fora revolvida para amortecer a minha queda.
Não quero que me batam. Estendi uma das mãos apoiando-me em outra, no que esta foi chutada e outra queda degustei; eu vi todo o céu de uma arena tão cercada com madeiras faces mil , todo o apoio que busquei na força dos meus dois braços colocou-me de joelhos.
Não quero que me batam e um sorriso enlargueci, o branco dos meus dentes avermelhou-se num instante. As gotas tão pungentes arrancavam os aplausos de mãos tão estridentes.
Não quero que me batam e com a força dos meus braços e joelhos bem firmados me ergui toda defesa para saudar o cobrador .
Não quero que me batam e já toda recomposta os meus braços eu abri; corri para o encontro quando, separando-nos a distância, uma lança atravessou-me e novamente eu cai. Com o apoio de uma mão e também dos dois joelhos me arrastei até a cerca e ali me apoiei, mas ela era tão solta... não me pôde sustentar; num impulso, não sei de onde, para o centro retornei.
Não quero que me batam e a lança até doía um pouco no meu peito, mas a esquerda me estancava, com a direita acenei. O braço na altura e feliz por agradar, senti profundo golpe na altura do meu punho. Logo o abaixei para esconder o rompimento da articulação.
Não quero que me batam e com o meu ombro tão direito apoiei tão forte clava. No que eu virei o rosto, o frio de um metal atravessou-se em minha face, fiquei desfigurada.
Não quero que me batam e por isso me firmei no apoio dos meus pés, sem muita demora uma intervenção mutilou-me um membro inferior.
Não quero que me batam e resolvi me sentar, fiquei bem quietinha no centro da arena, já não via o que se passava quando os meus olhos foram vazados e também não sei dizer quando rompeu a minha coluna.
Não quero que me batam e entendi que deveria deitar-me na areia daquela cena. Não sei para onde foi a lança, já não a sinto mais em meu peito, já não sinto nada, só a parte do rosto lateja um pouco. Uma voz, tênue e mansa, eu ouvi se aproximando, ordenando que parasse a cobrança neste dia. Senti na minha testa a ponta de um dedo, palavras me informavam que ele voltará até que se finde esta cobrança totalmente indolor.
Não quero que me batam e a todo instante vou vivendo, toda vez, para entregar- me de corpo e alma até pagar o meu credor.

Autoria - Rita Lavoyer

Terça-feira, 26 de Maio de 2009

EU NÃO ROUBEI A PREVIDÊNCIA


Um dia, os meus amigos e eu já fomos “também” a esperança deste País. Mas na nossa época não havia leis que protegiam as crianças, e muito cedo precisamos trabalhar; mas isso só nos fez bem, nos fez honrados. Hoje, chegamos a esta idade, e o que nos sobra?
Recolhi em dia os meus compromissos. O que recebo em troca de tudo isso? Trabalhei de sol a sol. Não me perguntaram se podiam descontar na minha folha de pagamento. O que tiravam me faltou para comprar o pão dos meus filhos.
Filhos da culpa! Uma culpa gera outra. Vocês? São filhos da culpa porque quiseram entrar nela. O meu pai teve pai; a minha mãe, pai também teve. Seus filhos da culpa! Fizeram data para comemorar o meu dia de aposentado. Vou comemorar o quê? A vergonha que eu sinto por ser aposentado neste país? Senhores, disso tomem ciência: “Eu não roubei a previdência!”
Ponham a mão na consciência! Tomem uma providência. Já cansei de me calar. Perdi as esperança. Por que ainda tiram de mim o que tinham que me dar?
Basta! Deixei que o meu futuro fosse resolvido por crianças que insistem em não crescer. Tantos anos de labor, chegar nesta idade, passar vergonha, sentir dor, ficar na fila de espera e não poder pagar doutor.
“Eu não roubei a previdência!” Na minha educação, quem é homem não mente! Por favor, tenham respeito. Apesar de ser idoso, ainda quero ser gente.
Senhores da presidência, tenham piedade! Um homem na minha idade sendo tão humilhado! Fui honesto a vida inteira e hoje vivo prisioneiro de um sistema mal resolvido, num país onde ladrões de elite tem a defesa de ministros e nós, aposentados, pagamos por termos sido honestos e honrado os compromissos. Será que Deus está vendo isto?!
Pai! Perdoe-nos por ter nos calado tanto tempo, os meus amigos aposentados e eu. Enxugue o nosso pranto, Pai! Para nós, só nos resta o desencanto. Perdoe-nos, Pai, termos chegado nesta idade e não conseguirmos viver com dignidade. Hoje, Pai, ser aposentado neste Brasil já virou pecado. Perdoe-nos por ter nos restado isso. Se o senhor conseguir ouvir a voz fraca deste velho, peço-te Pai, tire-nos deste inferno.
Eu nunca roubei ninguém, Pai, eu juro! O meu único erro, Pai, foi ter trabalhado e sonhado em poder chegar aqui, cantando. Forças não me restam mais. No meu orgulho de homem honesto, perante o Senhor, Pai, só me resta chorar.
Texto publicado no Jornal Folha da Região em 26/05/2009
imagem:www.osvigaristas.com.br

Terça-feira, 31 de Março de 2009

AGRADECIMENTOS

Coluna "Mulheres" Jornal Folha da Região - 31/03/2009.

Cara amiga, assim eu a tratei durante este mês de março, período em que pude apresentar um pouco do meu trabalho. Aliás, não deveria chamá-lo trabalho, mas catarse por ser uma forma de aliviar o meu peito e os nós que, às vezes, eu mesma os ato. Eu sou assim, cheia de sobe e desce porque a minha vida não é um mar de rosas, mas há as rosas e elas têm espinhos, ao mesmo tempo em que elas enfeitam, machucam.
A todos os que acompanharam a coluna “ Mulheres”: homens, mulheres, adolescentes, amigos, papagaios e adeptos a assuntos “sexopsicoecológicos” o meu muito obrigada.
Aos que acharam o número do meu telefone, apesar de ele não constar na lista, e me ligaram dizendo que eu sou meio louca, mas que gostaram do que leram, o meu muito obrigada e parabéns pelo esforço que fizeram para me localizar, mas não se esforcem mais, por favor!
Agradeço e parabenizo a minha mãe que me tem por filha. Aos meus irmãos, idem. Obrigada aos meus filhos sem os quais não seria o que eu sou.
À direção deste Jornal que me possibilitou esta imensa oportunidade, dizer apenas MUITO OBRIGADA é pouco. Então, que todos os meus agradecimentos recaiam sobre esta família ‘FOLHA DA REGIÃO’ em forma de orações.
À minha sogra um abraço e, ao meu marido, que me carregou nos braços durante muitos anos para eu poder chegar até aqui e poder andar com segurança e dizer tudo isso a vocês, eu ofereço a ele muitas Ritas e que Deus o ajude.
A Deus agradeço a tudo, simultaneamente, em orações.
Mulher! Parabéns por ser Mulher. Carregar esse manto não é para qualquer um. Por isso é que somos Mulheres, porque temos a competência para isso.
Deve ter observado que usei várias vezes a palavra ‘contramão’. De propósito. Quando vejo o mundo andando em uma mesma direção, me desvio dos controles remotos padronizados fincados nas mãos de certos grupos que manipulam cabeças. Eu coloco o meu capacete de louca e certas ondas não me atingem. Faço a minha piracema e desovo minhas controvérsias. Ser louca, às vezes, me faz muito bem, me cura da minha própria insanidade. Confesso uma coisa: Eu erro tanto, tanto, que às vezes eu falo a mim mesma que é hora de parar, mas há uma força que eu conquistei nos meus ‘pedidos de perdão’ que não me deixa desistir. Essa força quer que eu faça sempre para errar mais e, assim, continuar pedindo perdão. Acho que o perdão gosta de mim. Os acertos são poucos, mas significativos.
Tudo em você, Mulher, é sagrado. Ame muito, mas ame ao extremo. Nesses momentos de entrega você será feliz, pode crer. A dor de um rompimento amoroso é menor do que a angústia de não tê-lo vivido. Aquela passa; esta, não!
Não fique sozinha, arrume um companheiro que, antes de tudo, lhe tenha respeito para ambos trocarem carícias. Há pessoas honradas ainda, acredite! Precisamos do contato com o outro, independente de qual sexo você escolher para amar. O importante é que você ame muito sem medo do amor.
Todo amor vale a pena.
Acredite nisso! Eu acreditei. Hoje sou mais feliz do que antes porque quanto mais mulheres existirem dentro de mim, mais eu amo e mais ainda precisarei de Deus e a Ele recorrerei diariamente, agradando-O. Deus é Todo Sabedoria; eu, um pouquinho esperta!
Fiquemos com Ele, agora e sempre.
Beijão em você!

Imagem: meuslivrosweblog.com

Domingo, 29 de Março de 2009

DE VOLTA PRA CASA.



Coluna - "Mulheres" Jornal Folha da Região 29/03/2009


Este texto deveria ter sido o primeiro, porque foi como tudo começou, mas o deixei para o final, para não se cansarem de pastelão. Esta passagem é minha, tão somente minha, ma se achar necessidade, pegue carona. Sempre cabe mais um na contra mão dos meus caminhos.

“Quem eu fui para fugir assim, banindo-me? Desesperada e louca, por tão pouco saber de mim mesma? A esmo, saí peregrinando e, num vão da minha sala, sem tê-lo visto, caí em mim. O mundo era estranho e havia os espelhos mostrando-me nós. Só, eu neles me vi. Não as aceitei e dali quis fugir. Num reflexo, um sorriso me foi dado e, dentro dele quis entrar. Uma voz, severa e forte, era, então, o passaporte obrigando-me a chegar.
Desequilibrada e sem suporte, me empurrei àquela morte e mais fundo me adentrei. Encontrei-me com muitos eus, estranhos e indulgentes. Se sou assaz valente, de indulto eu não preciso. Herdeira de muito viço, dotada de desejo em foice, saí a inventariar. Lá se foi aquele ‘eu’, sozinha, com o azorrague em cada mão, rasgar-me os eus unidos e ensinar-lhes a lição. Armada com a belicosidade do meu potencial, fui mau! Camuflei-me e, diante do conflito, a própria guerra declarei. Vi-me lançada a um lado que era meu e outro lado, também meu, desolado, lá ficou. Sem mim, aquele meu pedaço teria fim. Sim! Como teria. Oh, propriedade minha! Voltarei. Mas o que é isto, impedindo-me voltar àquele território? O que é isto que eu plantei em mim? Um lado separando outro como o muro de Berlim? Mas este já está destruído, o meu seria provisório? Vi uma muralha erguida por uma canalha bloqueando a travessia. Não podia derrubá-la e, estando uma bala, só por brincadeira, pratiquei tiro ao alvo. Eu estava bem a salvo, pois bastava- me a mim mesma.
Tomei certa distância e me pus em vigilância. Sentia tantos eus em minha sombra e, na ânsia de eliminá-los, lancei a minha granada. Nada os derrotava. Eram todos em um só e eu, sozinha em luta, de nenhum quis ter dó. Não fui embora. Era hora de ficar e demarcar minha trincheira. Desconheço-os. Vou aniquilá-los e romper os elos para, enfim, ser somente eu a dona de mim. Com verbos explosivos e o estopim em minha boca, àquela tropa eu gritei para não tentarem troca.
Os meus ‘eus’ eram as Mulheres. Amigas unidas para salvar-me. Queria mandá-las pros ares. Não hesitei. Cada uma nos seus lugares eu as pus. Era o começo do meu fim.
Quis exterminar as minhas mulheres tão diferentes, mas delas fiquei carente, à solidão fazia jus. Eu, um ser absoluto, exclui os relativos e, sem razão para ponderar vivi só, no porão de ‘pobre-star’. Eu me perdi dentro de mim. O meu desprezo me encontrou presa ao meu sorriso, já nem sabia mais quem eu era. Olhava e não me via. Ora, nem me conhecia no opaco do espelho! Medi do alfa ao ômega minha megaoperação, sem perdão, eu tomei conta de mim.
Estava presa dentro de mim e não conseguia me soltar, queria ver a luz do dia, outros eus poder achar. O nada que eu era dominava o meu ser, precisava me libertar, já não vivia em meu lar porque eu era toda ‘ego’, como prego numa cruz. Quando pensava em fugir, vinha um ‘eu’ me seduzir, me pôr em grades. Vivia de joelhos, mas não queria me adorar. Queria viver de verdade. Era mulher , logo precisava me livrar do meu sorriso.
Precisei coragem para sair aos tapas comigo mesma. Machuquei, fui machucada.
Mas minha amante era mais forte e me livrou de muitas mortes. Diante da catástase a minha máscara estilhaçou. Foi quando eu chorei. Descobri que falsifiquei meu próprio ouro. Queria minhas mulheres de volta, elas são o meu tesouro.
“Rogamos-te piedade, oh! peregrina sem fronteira. Nos aceite companheiras pra atravessar o seu deserto!”
Oh, sina! Tantas mulheres em sentinela querendo me ajudar e eu, vencendo os preconceitos, já as queria bem mais perto. Elas importam-se comigo e eu, ser tão projétil, queria me detonar. Foi quando dei finalidade à minha marreta. Que batalha ordinária! Larguei minha arrogância, ressuscitei minha criança e devolvi- me o que eu espoliei. Colei minhas frações, outrora divididas, e achei um novo rumo entre o sorriso e a saída. Eu me fui tão carcereira, separando os meus lados e as mulheres que eu sou.
Nas prisões que eu vivi e que me foram tão lição, você amiga, assistiu, um pouco, neste Jornal.
Reuni minhas mulheres e, hoje, somos uma Nação. Eu voltei pra minha morada e me fiz toda Universo . Voltei bem mais segura porque derrubei algumas paredes que eu mesma erguia. Doravante, eu “ mulheres” , haveremos ser mutantes e por onde nós andarmos seremos sala de estar. Resido em mim mesma ponderando divergências, meu sorriso não tem grades e, de espelhos não preciso. O velho paredão, eu o lancei ao chão, e poder me transitar na verdade do que sou é o que me faz tão diferença. Na presença das minhas mulheres, descobri que batalha bem perdida jamais fica em vão.”
Você, cara leitora, entenda como puder, mas foi nesta viagem em minha vida, que descobri que sou MULHERES exalando perfumes de flores, as mais diversas.
Agora, preciso terminar este texto porque minhas flores estão chorando. Elas precisam de lágrimas para fortalecer suas raízes e amadurecer os meus versos para continuarmos, eu e as minhas mulheres, sendo o Templo da nossa própria poesia.
Na terça-feira, dia 31, me despeço de você, mas já trago comigo a saudade dos brilhos dos seus olhos sobre as minhas letras.
Que a Boa Luz Divina ilumine a tua caminhada e a cubra de bênçãos. Obrigada pela oportunidade da companhia. Beijos. Rita Lavoyer.

Este texto deveria ter sido o primeiro, porque foi como tudo começou, mas o deixei para o final, para não se cansarem de pastelão. Esta passagem é minha, tão somente minha, ma se achar necessidade, pegue carona. Sempre cabe mais um na contra mão dos meus caminhos.

“Quem eu fui para fugir assim, banindo-me? Desesperada e louca, por tão pouco saber de mim mesma? A esmo, saí peregrinando e, num vão da minha sala, sem tê-lo visto, caí em mim. O mundo era estranho e havia os espelhos mostrando-me nós. Só, eu neles me vi. Não as aceitei e dali quis fugir. Num reflexo, um sorriso me foi dado e, dentro dele quis entrar. Uma voz, severa e forte, era, então, o passaporte obrigando-me a chegar.
Desequilibrada e sem suporte, me empurrei àquela morte e mais fundo me adentrei. Encontrei-me com muitos eus, estranhos e indulgentes. Se sou assaz valente, de indulto eu não preciso. Herdeira de muito viço, dotada de desejo em foice, saí a inventariar. Lá se foi aquele ‘eu’, sozinha, com o azorrague em cada mão, rasgar-me os eus unidos e ensinar-lhes a lição. Armada com a belicosidade do meu potencial, fui mau! Camuflei-me e, diante do conflito, a própria guerra declarei. Vi-me lançada a um lado que era meu e outro lado, também meu, desolado, lá ficou. Sem mim, aquele meu pedaço teria fim. Sim! Como teria. Oh, propriedade minha! Voltarei. Mas o que é isto, impedindo-me voltar àquele território? O que é isto que eu plantei em mim? Um lado separando outro como o muro de Berlim? Mas este já está destruído, o meu seria provisório? Vi uma muralha erguida por uma canalha bloqueando a travessia. Não podia derrubá-la e, estando uma bala, só por brincadeira, pratiquei tiro ao alvo. Eu estava bem a salvo, pois bastava- me a mim mesma.
Tomei certa distância e me pus em vigilância. Sentia tantos eus em minha sombra e, na ânsia de eliminá-los, lancei a minha granada. Nada os derrotava. Eram todos em um só e eu, sozinha em luta, de nenhum quis ter dó. Não fui embora. Era hora de ficar e demarcar minha trincheira. Desconheço-os. Vou aniquilá-los e romper os elos para, enfim, ser somente eu a dona de mim. Com verbos explosivos e o estopim em minha boca, àquela tropa eu gritei para não tentarem troca.
Os meus ‘eus’ eram as Mulheres. Amigas unidas para salvar-me. Queria mandá-las pros ares. Não hesitei. Cada uma nos seus lugares eu as pus. Era o começo do meu fim.
Quis exterminar as minhas mulheres tão diferentes, mas delas fiquei carente, à solidão fazia jus. Eu, um ser absoluto, exclui os relativos e, sem razão para ponderar vivi só, no porão de ‘pobre-star’. Eu me perdi dentro de mim. O meu desprezo me encontrou presa ao meu sorriso, já nem sabia mais quem eu era. Olhava e não me via. Ora, nem me conhecia no opaco do espelho! Medi do alfa ao ômega minha megaoperação, sem perdão, eu tomei conta de mim.
Estava presa dentro de mim e não conseguia me soltar, queria ver a luz do dia, outros eus poder achar. O nada que eu era dominava o meu ser, precisava me libertar, já não vivia em meu lar porque eu era toda ‘ego’, como prego numa cruz. Quando pensava em fugir, vinha um ‘eu’ me seduzir, me pôr em grades. Vivia de joelhos, mas não queria me adorar. Queria viver de verdade. Era mulher , logo precisava me livrar do meu sorriso.
Precisei coragem para sair aos tapas comigo mesma. Machuquei, fui machucada.
Mas minha amante era mais forte e me livrou de muitas mortes. Diante da catástase a minha máscara estilhaçou. Foi quando eu chorei. Descobri que falsifiquei meu próprio ouro. Queria minhas mulheres de volta, elas são o meu tesouro.
“Rogamos-te piedade, oh! peregrina sem fronteira. Nos aceite companheiras pra atravessar o seu deserto!”
Oh, sina! Tantas mulheres em sentinela querendo me ajudar e eu, vencendo os preconceitos, já as queria bem mais perto. Elas importam-se comigo e eu, ser tão projétil, queria me detonar. Foi quando dei finalidade à minha marreta. Que batalha ordinária! Larguei minha arrogância, ressuscitei minha criança e devolvi- me o que eu espoliei. Colei minhas frações, outrora divididas, e achei um novo rumo entre o sorriso e a saída. Eu me fui tão carcereira, separando os meus lados e as mulheres que eu sou.
Nas prisões que eu vivi e que me foram tão lição, você amiga, assistiu, um pouco, neste Jornal.
Reuni minhas mulheres e, hoje, somos uma Nação. Eu voltei pra minha morada e me fiz toda Universo . Voltei bem mais segura porque derrubei algumas paredes que eu mesma erguia. Doravante, eu “ mulheres” , haveremos ser mutantes e por onde nós andarmos seremos sala de estar. Resido em mim mesma ponderando divergências, meu sorriso não tem grades e, de espelhos não preciso. O velho paredão, eu o lancei ao chão, e poder me transitar na verdade do que sou é o que me faz tão diferença. Na presença das minhas mulheres, descobri que batalha bem perdida jamais fica em vão.”
Você, cara leitora, entenda como puder, mas foi nesta viagem em minha vida, que descobri que sou MULHERES exalando perfumes de flores, as mais diversas.
Agora, preciso terminar este texto porque minhas flores estão chorando. Elas precisam de lágrimas para fortalecer suas raízes e amadurecer os meus versos para continuarmos, eu e as minhas mulheres, sendo o Templo da nossa própria poesia.
Na terça-feira, dia 31, me despeço de você, mas já trago comigo a saudade dos brilhos dos seus olhos sobre as minhas letras.
Que a Boa Luz Divina ilumine a tua caminhada e a cubra de bênçãos. Obrigada pela oportunidade da companhia. Beijos.

Imagem: Taisluso.bloggspot.com / Mulheres - Marilia Chartune

Sábado, 28 de Março de 2009

MULHER - FLOR-AZUL DA POESIA.



Coluna "Mulheres" Jornal Folha da Região - 28/03/2009


Quando eu era bem novinha mesmo, tinha uma vontade enorme de ter uma roupa azul . Não importava o modelo, mas tinha que ser azul. Um azul que transmitisse uma claridade de paz. O tempo passou bastante e não havia posto, ainda, a roupa azul. A vontade ficou na alma e aumentou ainda mais quando a desejei com uma jóia de pedra azul. Roupas compradas para a necessidade nunca foram a da cor desejada.
Na primeira gravidez eu não tive aquela roupa azul. A ocasião pedia roupas especiais e as que eu tinha me bastavam, eu agradecia. No dia do meu aniversário, nasceu o meu filho lindo com olhos de jabuticabas. O tempo passou mais um pouco e não levou embora o desejo da cor. Uma filha eu teria e a vontade daquele tom com claridade de paz gerava junto com ela. Foi então que eu tive condições de adquirir o azul para enfeitar o meu corpo tão belamente grávido. Eu tive três azuis. Tinha que ser vestido e não aceitava outra peça. Comecei a me achar a grávida mais linda dentro dos meus azuis. De cortes, simples e singelos, caiam perfeitamente na minha silhueta de mãe.
Satisfeita a minha carência de azul, desejei um conjunto de saia e blusa para gestante na cor rosa com muitos laços. Desenhei o modelito e pedi para fazê-lo. Tinha lacinhos que não acabavam. Era uma grávida usando roupas para bonecas. Depois que os meus filhos nasceram não parei mais de escrever. A minha cor azul virou poesia; a rosa, virou a amante das mulheres que eu gosto de ser.
Para as minhas e todas as mulheres que vocês também são:

“FLOR AZUL”
“Todas as flores têm as cores que Deus lhes deu./ A minha mulher é de um azul tão lindo/ É a flor mais linda que a aquarela escreveu./ Oh! Mulher linda, flor maravilhosa/ Todo o seu colorido é azul cor de infinito./ Ela embeleza todo céu e todo o mar/ Se veste toda de azul pra me amar, pra me amar./ É o meu carnaval, fantasia e purpurina / É a flor brilhante de azul com serpentina. /Que alegria é a minha mulher,/ Uma flor do campo com azul cor de encanto./ Canto ela aqui, canto acolá./ Canto o seu azul que só sabe encantar./ Minha mulher, minha fortaleza/ É uma jóia rara, é uma flor azul-turquesa./ Por ela sou muito orgulhoso/ Minha flor-mulher é de um azul maravilhoso./ Ela tem um tom que aquece o meu frio/ Minha flor-mulher tem a cor azul-anil./ O perfume que ela tem me leva ao céu./ O gosto da minha flor é azul da cor do mel./ Minha flor-mulher tem o azul do esplendor. / Deus fez todas as flores com o azul da sua cor./ Oh! Mulher linda, flor maravilhosa/ Todo o seu colorido é azul cor de infinito./ Eu não sei viver sem o azul da sua boca/ A minha mulher, entre todas, é a mais louca./ Essa flor-mulher torna o azul todo brilhante/ No leito de suas pétalas me faz todo amante./ Por essa cor dela eu me vejo enlouquecido./ Hoje, só sou homem porque visto o seu vestido./ Nele eu me envolvo porque o azul só me compraz./ A minha mulher é toda ramalhete com a cor da paz./ A jóia que queria para adornar a tua cor/ são os olhos da nossa filha, fruto do nosso amor./ Esse homem que há em mim é o ramo da minha flor porque ele é tão Mulher quanto o nosso Criador.”

Mulher, vista-se de céu e encontre em teu ser o motivo da paz ao mundo!

Imagem: flickr.com