quarta-feira, 18 de novembro de 2009

AS SEQUELAS DO BULLYING


Sabor de Pimentão.

Exploramos o mundo à nossa volta com os nossos órgãos dos sentidos. Eu sei que consigo sentir através da minha visão, saborear com o tato prazeres e angustias. Quantos remorsos degustamos ao engolirmos sapos que cheiram tão mal aos nossos estímulos, mas os fazemos, calados.

Éramos crianças. A turma ir a pé à escola. As ruas eram enfeitadas com uniformes, uns brancos; outros nem tanto. Íamos rindo, brincando com o outro sem mesmo saber quem ele era. Aglomerávamos conforme a escola se aproximava. Nas bifurcações, uma leva juntava-se à outra. Em determinada altura do caminho, eu sabia que iria encontrá-lo. O nome dele nunca soube. O conhecíamos apenas por “Pimentão”. Era menino alegre, divertia-nos até chegarmos ao pátio da escola. Ele me causava alegria. Era simples somente pelo fato de ser. Bastava-se.

Não foram nem uma, nem duas vezes que toda a escola ouvia gritos de alunos, porque estavam apanhando das mestras. Na minha sala, eu tremia junto com alguns, enquanto outra metade da classe incentivava, aos gritos, aquelas torturas.

A minha professora avisava, gritando, que aquilo deveria nos servir de exemplo. Diante de tamanha coação, ficávamos imóveis nas carteiras.

_ E aí “Pimentão”, apanhou hoje, hein!

Ouvi isso na saída. Um grupo de colegas de classe zoava o “Pimentão”, porque ele havia apanhado, dentro da classe, da professora, cujo nome não citarei, porque ela ainda vive.

Ele ficava vermelho, igual a um pimentão mesmo, quando o irritavam. Por isso, herdou o apelido. E o constrangimento o acompanhava até que findasse o seu caminho de retorno à casa, talvez deixasse a vergonha do lado de fora, quando a adentrasse, batendo a porta. Talvez...

No dia seguinte a rotina era a mesma, os encontros acontecendo e aquele menino, apenas “Pimentão”, animando a garotada. Eu gostava da alegria dele, embora não soubesse o seu nome. Apenas uma criança simples. Apenas.

Naquela saída eu o vi mais vermelho do que antes. Os “amigos” o chacotearam. Falavam de outra surra que levou da professora porque era ‘burro’, não decorara a tabuada. Engraçado! Não ouvimos os gritos do alegre “Pimentão”. Apanhara em silêncio desta vez?

Nunca mais o vi. Não havia mais o “Pimentão” naquela leva que se juntava à outra. Não sei para onde ele foi. O ano, tenho certeza, ele não terminou naquela escola. Desvencilhou-se aquele “Pimentão” da rotina escolar.

Acovardou-se ou teve coragem de fugir de si mesmo por terem lhe roubado a sua autoestima, a sua alegria simples de apenas ser o que realmente era?

Com variedades, os pimentões são ligeiramente picantes. Alguns dizem que quando os comem, lembram-se deles o dia todo. Cada um os digere conforme o funcionamento do seu organismo, por isso uns os saboreiam; outros, não.

O pimentão, enquanto uma hortaliça, meu organismo o aceita muito bem. Mas os meus sentidos, convertidos em impulsos elétricos e que transitam o meu Sistema Nervoso Central, me fazem ouvir os sabores daquele “Pimentão” que gritava aos olhos de tantos e que nada faziam para amenizar o seu flagelo, a sua angústia, a sua vergonha, a sua humilhação. As dores daquele menino eu ainda as vejo, eu ainda as ouço, mas eu não as digiro.

imagem:worldwidephotos.org.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

A POLÍTICA DE ATENÇÃO À CRIANÇA EM ARAÇATUBA É BOA?


A política de atenção à criança em Araçatuba é boa?
Política- A-3 - Pergunta do dia 07/11/2009.



Parabenizo o Jornal Folha da Região por evidenciar esta questão, uma vez que o assunto faz-se urgentemente necessário e manifestações à respeito devem vir à tona, para que olhares sejam voltados às crianças.

É muito fácil falar em política, cobrando dirigentes, esses mesmos que se propuseram a nos proteger, mas, às vezes, não fazem à altura do que esperávamos, quebrando-nos as expectativas. Os políticos são nossos pais?

É cobrança atrás de cobrança que todos nós fazemos. Se o assunto é política, vamos ‘‘descer o pau’’. Há muito me ensinaram os meus direitos. Acabou-se a política do ‘cala boca’?

Claro que para a pergunta em questão, o destaque será maior se a resposta for “NÃO”. Gosto de um ditado chinês que diz: “Se deseja ver a tua cidade limpa, comece por limpar a frente da tua casa.” Isso não requer nenhum esclarecimento, a mensagem é clara. Trago esse ditado para dentro da minha casa. Se eu desejo ver meus filhos num mundo mais harmonioso e seguro, tenho que começar por educá-los em harmonia dentro do lar, ensinando-os a se respeitarem mutuamente. Não é fácil, a tarefa é árdua, mas não posso desistir, não posso deixá-los à mercê da política. Afinal, as crianças são crianças por mero acaso? Precisa política para me ensinar a ser responsável pelos que eu gerei?

É demagogia demais esta minha, estou repetindo o assunto, mas não me aquieto, porque tudo o que se refere às crianças se faz urgente e eu não posso esperar para depois e nem deixar que façam o que eu, por obrigação, devo fazer. Ah, lembrei-me: Política nenhuma isentou-me dos meus deveres.

E ultimamente tenho declarado minha indignação frente a comportamentos, principalmente os de crianças que atuam como adultos, sem sentimento algum em relação aos seus ‘colegas’. Tenho certeza que as crianças agressoras são tão vítimas quanto as outras que elas vitimam. Existe a política da oração?

Há pessoas bem intencionadas nesta cidade em trazer e fazer benefícios às crianças, mas todo o esforço ainda é pouco porque a criança é indefesa, precisa do abrigo de braços paternos. Isso, política nenhuma será capaz de substituir. Então, a política é falha, ineficiente e os que estão no seu trato acabam sendo os responsáveis por não darem conta do recado? Já foram decretadas as leis da política da ‘paternidade’ ou sou eu a atrasada por estar fora das normas que as compõem?

O assunto é complexo, muitas coisas devem ser discutidas a respeito, afinal muitas crianças nascem sem família. Serão filhos de uma política de p.... nenhuma produzida por fdp no plural?

Pensar se a política pública, esta arte de bem governar o povo, principalmente a que trata questões infantis, em Araçatuba, ‘é boa ou não’, depende de como eu aprendi a descascar uma laranja e como saboreio cada gomo dela. Como todos os gomos diferem-se entre sim, acabamos, às vezes, por engolir abacaxis, uns doces; outros, não!


Texto para a Coluna dos Leitores. Esse texto não foi encaminhado na íntegra, face ao vocabulário aqui apresentado.
Rita Lavoyer

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O OLHO DO LOBO




O olho do lobo
É olho vermelho
O lobo do olho
É o seu espelho.

O vermelho do olho
É o lobo inteiro
Quem julgou o seu fardo
Foi você primeiro.

Viva o seu lobo,
Deixe o rebanho,
Largue o seu cajado.
Veja com o seu olho
Todo o vermelho
Que escorre,
Que escorre,
Que escorre em seu peito
Feito um não sei o quê.
Feito um não sei o quê.

O lóbulo do lobo
É um olho ouvido
O pelo do olho
É um som comprimido.

Mate o seu cordeiro
Pra poder viver
Viva o seu lobo,
abra o seu olho
Vê se vê você.
Sinta-se inteiro
Nesse seu espelho.
Abra o olho agora!
Não fuja do lobo
se ele o apavora.
O lobo é você mesmo
Viva com ele
Nesse mundo afora.

O espelho do lobo
É o seu reflexo
Seja verdadeiro
Deixe os complexos.
Rita Lavoyer

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A VIDA PEDE PAZ, A PAZ PEDE URGÊNCIA.



Penso ser a guerra inexequível. Mas para torná-la exequível, homens de boa vontade em promovê-la reúnem-se para discuti-la. Pensando-a possível, arregaçam as mangas para promovê-la. Colocam em prática o PODC. Planejam, Organizam, Dirigem e Controlam. Para isso, o homem é capaz de se reunir, fazer amigos para alcançar o que deseja. O homem pode! E junto aos seus iguais, executam o que planejaram dias seguidos, consumindo-lhes noites de sono, reuniões familiares, refeições saudáveis em horários corretos. Estressam-se, brigam entre si nesse grupo de iguais para verem os projetos no papel concretizando-se em explosões. Conseguem tornar a guerra exequível. Executam-na, e em seguida executam-nos. Tornam-se ‘experts’ no assunto. Isso é dom do homem.

É impressionante, penso eu, como nós, seres humanos, embora não muito dentro do processo evolutivo para sermos considerados de fato Homens, não temos mais a capacidade de nos indignarmos com o que vemos de errado. Algumas barbáries já são tão comuns entre os “civilizados”, que se destaca mais entre um grupo, o homem que menos se compadece com fatos que, a princípio, deveriam nos chocar.

Quando penso que eu já não estou mais contida no outro, porque ele esgota-se em si mesmo, sinto-me dentro de uma vala comum em que todos somos descartados. Não estamos mais habituados a nos compadecermos com o próximo, porque o meu próximo, de preferência, é o último da fila. E eu não o vejo, uma vez que a fila dobra a esquina. Logo eu já nem sei mais quem é o meu próximo.

Então, que cada um sofra as suas consequências, porque eu também tenho as minhas e cada um por seu umbigo, e o mundo gira como a minha cabeça também gira quando eu a coloco no travesseiro, e a minha consciência não se aquieta, enquanto não me disser tudo apontando o dedo no meu nariz.

Confesso: nem eu mesma aguento o discurso da minha consciência. Afinal de contas, amanhã é outro dia e eu preciso dormir para repor as energias que eu gastei hoje. Mas a minha consciência quer me ensinar que ela não se esgota sozinha e necessita ‘viver’ contida em mim. No que eu lhe grito para ver se ela me esquece: “Sou aprendiz, vai procurar um profissional!”

Então eu chorei, e fui buscar consolo no meu livro “Fonte de vida”, o abri exatamente na página 321, cujo texto traz o título “Ajudemos a vida mental”. Veja um fragmento dele:

“Não nos esqueçamos, pois, de que abençoada será sempre toda colaboração que pudermos prestar ao povo, em nossa condição de aprendizes. Ninguém precisa ser estadista ou administrador para ajudá-lo a engrandecer-se. Boa vontade e cooperação representam as duas colunas mestras no edifício da fraternidade humana”.

Diante de tão grandioso ensinamento, aprendi que: quando as lágrimas nos vêm e em Deus buscamos ajuda, uma resposta à elas nos será dada imediatamente.

Acreditei nisso e me conscientizei de que tendo eu o dom do aprendizado, as minhas lições apreendidas não devem ser guardadas. Quanto mais eu as libero, mais ainda elas estarão contidas em mim. Assim entendo que eternamente devo ser aprendiz para eu não ter medo agir com medo de errar. O aprendiz pode!

Voltando ao assunto ‘guerra’, entendi que aprendizes, meu próximo e eu, se quisermos, conseguiremos reconstruir o que ‘experts’ destroem. Podemos fazer um jardim onde há escombros, para isso, basta arregaçarmos as mangas. No concreto também nasce flor. É utopia? Se a guerra nunca foi, porque a PAZ deve ser assim considerada? Cumpramos bem o nosso papel de aluno na cartilha do bem, porque a nossa vida pede paz, e a paz pede urgência e eu preciso de você que é o meu próximo, e que me completa, para eu encontrar a minha paz.
Autoria - RITA LAVOYER

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

"BULLYING" NÃO É BRINCADEIRA


Durante a minha infância tive algumas experiências com brincadeiras desagradáveis nos grupos de amigos. Nunca fui “santinha”, mas revidar não era minha característica, por isso, sempre ficava com um espinho na garganta ou uma ‘coceirinha’ na palma da mão provocando-me: “por que não deu o troco?”

O sentimento passava logo e no dia seguinte era tudo igual, uma vez que continuávamos amigos, realizando as mesmas rotinas de vida, dentre elas a corriqueira passadinha na casa do outro para, a pé, irmos à escola. Aquela época foi boa, porque foi o meu tempo e eu o aproveitei. Cada um a seu tempo, não acha?

Mas o meu “tempo” parece que ainda não terminou. Tenho que me manter alerta, de prontidão, para receber e agradecer o que me chega de bom. Do mesmo modo devo estar preparada para resolver o que vem como contrário aos meus objetivos. Bem, me desenvolvi um pouco, portanto, posso dizer que tenho algumas condições para realizar tal fim.

Embora muitas coisas tenham mudado de rumo, desde aquela época até agora, parece-me que algumas permanecem nos mesmos lugares. Às vezes, me questiono se o homem, depois de tantas transformações sociais, tecnológicas, informacionais, percebe que a vida tem lhe possibilitado a aproximação ou o melhoramento nas suas relações interpessoais. Tenho a impressão de viver da mesma maneira que os nossos ancestrais pré-históricos que sobreviveram à custa de muita luta. Não penso com isso em desconsiderar o homem como um ser evoluído, no entanto, existem algumas circunstâncias vividas que me levam a pensar contrariamente a este fato.

É aqui que chego à ideia do Bullying. Falar sobre Bullying, hoje, para mim, já não é mais tão doloroso. Fui me inteirando sobre o assunto até apreender o significado desta palavra ‘estranha’. Estranha? Não. É uma palavra cujo conceito nos acompanha há gerações.
Para quem ainda não sabe, Bullying significa uma variedade de agressões intencionais e repetidas, praticadas entre alunos para mostrar o poder de força de um sobre o outro. Os autores e os alvos são crianças e adolescentes, e as ações dos agressores e/ou autores são praticadas dentro das escolas, cujas vítimas (alvos) são os mais tímidos, ou aqueles que apresentam algumas características físicas que podem chamar a atenção, os conhecidos ou tratados – “diferentes”.

As pesquisas indicam que as crianças alvos de Bullying superam cada vez menos seus traumas psicológicos. O problema está no crescimento desta prática dentro do círculo infanto-juvenil, e eu posso afirmar sem medo de errar, que o problema atinge todas as escolas, sejam elas da rede particular ou da rede pública, haja vista estarem ali os que sofrem e os que praticam esses tipos de ações e/ou agressões.
Por não saberem dar nomes às suas atitudes, algumas crianças e jovens continuam praticando suas supostas “maldades”, alegando meras “brincadeirinhas”.

Brincadeira saudável nenhuma causa transtorno físico, psicológico e o isolamento de uma criança. No entanto, quando se trata do conhecido Bullying, a história muda de figura, pois, aqui, se aplica a ideia da brincadeira da “maldade”.

Hoje é crescente o número de crianças ou adolescentes que assumem comportamentos agressivos contra o colega de escola sem se darem conta do que estão fazendo, quando, infelizmente, estão praticando o Bullying. Mais triste ainda, é saber que dentre os alvos estão indivíduos inocentes, aqueles que raramente se dispõem a sair em defesa de si mesmos, seja por falta de habilidade, seja por dificuldades físicas ou emocionais.

Digo ainda que mais complicada seja a questão da falta de conhecimento por parte dos docentes e pais sobre este assunto. Muitas vezes, ambos já presenciaram essas ações e não se deram conta dos malefícios que Bullying causa. Por exemplo, há pais que desconhecem o comportamento agressivo do filho dentro da escola; como também há pais que não conseguem diminuir o sofrimento do próprio filho, quando este é o alvo. Encontra-se nesta cadeia de problemática a criança que, por insegurança, muitas vezes não consegue relatar a alguém as humilhações pelas quais passa
Chamo a atenção para esta questão, pois, afinal não cabe ao professor cuidar sozinho do comportamento dos seus alunos, ou seja, há aqui uma tarefa que deva ser compartilhada com a família. Nesse caso, o acompanhamento das crianças e dos adolescentes em fase escolar é missão, há tempos, daqueles envolvidos no processo do seu desenvolvimento: pais e escola. Mas há pais que não acham isso

No meu tempo o Bullying já existia, mas continuar acontecendo até os dias de hoje, leva-me a refletir sobre a necessidade de discussão sobre o assunto num âmbito mais geral. Pois, viver nesta época das trocas comunicacionais, da era da Internet, e permitir que os indivíduos se ataquem de modo negligenciável (via linguagem), é não permitir a própria evolução do homem enquanto ser das interações sociais.

E destaco a importância do debate sobre esse assunto, porque à medida que não possibilitamos a criação de espaços para fóruns de tamanha dimensão estaremos, com isso, convencionando práticas desumanas que podem vir a acarretar danos irreversíveis na fase de desenvolvimento do sujeito; esclareço aqui: “sujeito criança ou adolescente” que uma vez privado desses assédios morais, poderá ser um indivíduo mais disposto à prática da sociabilidade.

Há crianças perdendo o melhor tempo de suas vidas: a infância. Quando deveriam brincar, se relacionar com segurança, despertar sua criatividade - sustentáculo do aprendizado-, escondem-se por insegurança, por serem alvos de humilhações aplicadas por outras, também crianças e jovens, que não conhecem a si mesmos, tão pouco os seus limites.
Assumo enquanto educadora, mãe e cidadã, que não tenho e não apresento solução para o problema chamado Bullying, estudo o problema e me coloco à disposição para levar o assunto à luz de todos, mas, conclamo, caso você, leitor(a), tenha conhecimento sobre o tema e possa nos auxiliar, estaremos todos, eu, você e a sociedade, agradecidos. Podemos afirmar que a temática urge e não devemos nos dar por vencidos. Logo, o debate se faz urgente.

Tendo, ou não, alguma ideia, sugestão ou conhecimento, e se tiver algum interesse em discutir sobre Bullying, estaremos reunidos no próximo dia 20/10/2009, às 18h30, na sede do Jornal Folha da Região para uma breve discussão. Junte-se a esta causa, PORQUE BULLYING NÃO É BRINCADEIRA.
Observação: as instituições educacionais são lugares onde as crianças e adolescentes, pais e professores devem confiar. Ou não?

Rita Lavoyer é professora, escritora e tem sete obras publicadas, entre elas Bullying não é brincadeira.




terça-feira, 13 de outubro de 2009

LISTA DO QUÊ?


Solicitaram-me uma lista.
Eu não sei fazer lista.
Nem a do mercado consigo mais.
Virou automático,
Agora rotina
É para sempre o dia a dia.
Eu não sei fazer lista
de sonhos
de outrora
de agora
ou amanhã
De amores
se é apenas um.
Só um.
Só um?
Só um enche uma lista
Porque um é mais do que tudo
Preenche a folha de um vago quadrado
Que hoje,
tão branco,
o destaca em azul esferográfico.
E amanhã, será que vai amarelar?
esfarelar?
desbotar o azul?
apagar as letras?
abafar o sentido?
Ser comida pelas traças?
ou pelas baratas?
ou pelos ratos?
E se vir alguma cobra
para comer o rato
que engoliu a barata
que espantou as traça
que rompia o sentido abafado,
as letras apagadas
de azul desbotado?
esfarelado?
amarelado?
branco...
Branco???????????????????
Nossa! Me deu um branco.
Lista do quê mesmo eu tinha que fazer?

RITA LAVOYER

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

NA FOZ OU NO SONO?



Na foz do horizonte estarei
quando minhas pálpebras
forem visitadas pelo tempo
arrefecido.
Lá, mergulhada na embarcação
infinita de cada gota, envolvo
o seu convexo em minha reentrância,
anestesiando o nosso equilíbrio
no enlace das aparências afins.
Não a deixarei secar.
Estaremos, ela e eu, envolvidas
na mais profunda realidade
do sonho.
Não havendo mais o último pingo
daquele ponto de desembocadura,
retornarei para que minhas
pálpebras se entreguem
àquele que as procura.
Rita Lavoyer